Entre os variados tipos de referências, há provérbios, ditos populares, frases bíblicas ou obras/trechos de obras constantemente citados, literalmente ou modificados, cujo reconhecimento é facilmente perceptível pelos interlocutores em geral. Por exemplo, uma revista brasileira adotou o slogan: "Dize-me o que lês e dir-te-ei quem és." Voltada fundamentalmente para um público de uma determinada classe sociocultural, o produtor do mencionado anúncio espera que os leitores reconheçam a frase da Bíblia ("Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és"). Ao adaptar a sentença, a intenção da propaganda é, evidentemente, angariar a confiança do leitor, pois a Bíblia costuma ser tomada como um livro de pensamentos e ensinamentos considerados como "verdades" universalmente assentadas e aceitas por diversas comunidades. Outro tipo comum de intertextualidade é a introdução em textos de provérbios ou ditos populares, que também inspiram confiança, pois costumam contar mensagens reconhecidas como verdadeiras. São aproveitados não só em propagandas mas ainda em variados textos orais ou escritos - literários e não-literários. Por exemplo, ao iniciar o poema "Tecendo a manhã", João Cabral de Melo Neto defende uma ideia: "Um galo sozinho não tece uma manhã". Não é necessário muito esforço para reconhecer que por detrás dessas palavras está o ditado "Uma andorinha só não faz verão". O verso inicial funciona, pois, como uma espécie de "tese", que o texto irá tentar comprovar através de argumentação poética.
Há, no entanto, certos tipos de citações (literais ou construídas) e de alusões muito sutis que só são compartilhadas por um pequeno número de pessoas. É o caso de referências utilizadas em textos científicos ou jornalísticos (Seções de Economia, de Informática, por exemplo) e em obras literárias - prosa ou poesia - que às vezes remetem a uma forma e/ou a um conteúdo bastante específico, percebido apenas por um leitor/interlocutor muito bem informado e/ou altamente letrado.
A remissão a textos e paratextos do circuito cultural (mídia, propaganda, outdoors, nomes de marcas de produtos, etc.), é especialmente recorrente em autores chamados pós-modernos. Para ilustrar, pode-se mencionar, entre outros escritores brasileiros, Ana Cristina Cesar, poetisa carioca, que usa e "abusa" da intertextualidade em seus textos, a tal ponto que, sem a identificação das referências, o poema se torna constantemente, ininteligível e chega a ser considerado por algumas pessoas como um "amontoado aleatório de enunciados", sem coerência e, portanto, desprovido de sentido.
Os livros que tratam de coesão e coerência textuais costumam contextuar intertextualidade e exemplificar contextos ou trechos de textos. A "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias, exaustivamente parodiada por diversos autores, é invariavelmente citada como exemplo de intertextualidade.
Os teóricos costumam identificar tipos de intertextualidade (cf. Koch & Travaglia. Texto e coerência. São Paulo, Cortez, 1989, p. 88-89), entre os quais se destacam:
- a que se liga ao conteúdo (por exemplo, matérias jornalísticas que se reportam a notícias veiculadas anteriormente na imprensa falada e/ou escrita: textos literários ou não-literários que se referem a temas ou assuntos contidos em outros textos, etc.). Podem ser explícitas (citações entre aspas, com ou sem indicação da fonte) ou implícitas (paráfrases, paródias, etc.);
- a que se associa ao caráter formal, que pode ou não estar ligado à tipologia textual como, por exemplo, textos que "imitam" a linguagem bíblica, jurídica, linguagem de relatório, etc. Ou que procuram imitar o estilo de um autor (cf. texto "Grande ser, tão veredas", de Paulo Leminski, publicado em A Folha de São Paulo, e reproduzido em Koch & Travaglia: 1989, p.89-90), em que o autor comenta o seriado da TV Globo, baseado no livro de Guimarães Rosa, procurando manter a linguagem e o estilo do escritor;
- a que remete a tipos textuais (ou "fatores tipológicos"), ligados a modelos cognitivos globais, às estruturas e superestruturas ou a aspectos formais de caráter linguístico próprios de cada tipo de discurso e/ou a cada tipo de texto: tipologias ligadas a estilos de época. Por superestrutura entendem-se, entre outras, estruturas argumentativas - premissas - argumentos (contra-argumentos) - (síntese) - conclusão (nova tese); estruturas narrativas (situação - complicação - ação ou avaliação - resolução (moral ou estado final) etc.; (cf. Fávero, L. Coesão e coerência textuais. São Paulo, Ática, 1991. Vocabulário crítico, p.92 e Koch & Travaglia, 1989 p.92-93);
Como afirmam Koch & Travaglia, "todas as questões ligadas à intertextualidade influenciam tanto o processo de produção como o de compreensão de textos e apresentam consequências no trabalho pedagógico com o texto [...]"(1989, p.95).
Considerada por alguns autores como uma das condições para existência de um texto, a intertextualidade se destaca por relacionar "um texto concreto com a memória textual coletiva, a memória de um grupo ou de um indivíduo específico" (Mira Mateus et alii, 1983).
A noção de intertextualidade, da presença contínua de outros textos em determinado texto, nos leva a refletir a respeito da individualidade e da coletividade em termos de criação. Neste sentido, Fiorin e Savioli (1996) afirmam:
"Todo texto é produto de criação coletiva: a voz do seu produtor se manifesta ao lado de um coro de outras vozes que já trataram do mesmo tema e com as quais se põe em acordo ou desacordo."
Vimos anteriormente que citação de outros textos se faz de forma implícita ou explícita. Mas, com que objetivo?
Um texto remete a outro para defender as ideias nele contidas ou para contextar tais ideias. Assim, para se definir diante de determinado assunto, o autor do texto leva em consideração as ideias de outros "autores" e com eles dialoga no seu texto.
Ainda ressaltando a importância da intertextualidade, remetemos às considerações de Vigner (1988, p.31-37): "Afirma-se aqui a importância do fenômeno da intertextualidade como fator essencial à legibilidade do texto literário, e, a nosso ver, de todos os outros textos. O texto não é mais considerado só nas suas relações com um referente extra-textual, mas primeiro na relação estabelecida com outros textos".